"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda." (Paulo Freire)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Literatura de cordel


Encontro de Lampião com Kung Fu em Juazeiro do Norte
Autor: Abraão Batista
Meu leitor, meu amiguinho
Permita a imaginação
Desse encontro imaginário
De Kung Fu com Lampião
Na cidade de Juazeiro
De Padre Cícero Romão...

Pois bem, eu vou dizer
Como foi que aconteceu
Dizendo quem se feriu
Quem matou e quem morreu
Depois diga por aí
Quem contou isso foi eu

Mas se lembre esta história
É livre e imaginária
Vem do direito do poeta
Que tem na indumentária
Do infinito astucioso
Que não tem medo de pária

Lampião, todos conhecem
Mas não sabem interpretar
Só sabem falar mal dele
Porque não quiseram indagar
A causa que ele abraçou
E o que o forçou a matar

Se Lampião foi cangaceiro
Foi que o forçaram a matar
Ele era bom e justiceiro
Antes de o incriminar
Pois a justiça dos homens
Às vezes não sabe julgar


No entanto, o meu assunto
O que agora vou descrever
É de Lampião, o cangaceiro
Com Kung Fu do caratê
E se você não o conhece
Vai agora o conhecer


Eu já falei de Lampião
Que é um herói invisível
Nesse momento de Kung Fu
Que é um chinês invencível
Nas grandes lutas de morte
Sempre foi o imbatível


A China tem o seu herói
Que luta pela justiça
Aprendeu as leis dos monges
Que desprezam a vã cobiça
E desde pequeno, que ele
Teve escola sem malícia


Kung Fu desde pequeno
Ficou sozinho no mundo
E os monges do Himalaia
Não o quiseram um vagabundo
Acolheram-no no mosteiro
Ensinando-o todo segundo


Depois que Kung Fu cresceu
Saiu pelo mundo a fora
Procurando fazer justiça
O que sua cartilha decora
A perseguição e a cobiça
São coisas que mais deplora


Kung Fu fez uma promessa
Para no santo Juazeiro
Visitar padrinho Cícero
Que é santo por primeiro
Veio a pé, veio a cavalo
E de navio, como romeiro


Desembarcou em Fortaleza
Do Ceará, a capital
E o resto desse percurso
Fez a pé, e não fez mal
Porque ele é um atleta
Cuja força é sem igual


Lampião, por esse tempo
O mesmo ato resolveu
Só não sei onde estava
Se no inferno, ou no céu
Eu só sei que no mesmo dia
Por aqui, apareceu


E no túmulo do "meu padrinho"
Os dois valentes se encontraram
Parecendo, no mesmo instante
Ao mesmo tempo, se ajoelharam
Quando nos ares, os seus olhares
Como relâmpagos se entrechocaram


Lampião olhou esquivo
Para Kung Fu, e indagou
Onde moras, ó meu irmão?
E Kung Fu lhe afirmou:
— Sou habitante desse mundo
E com capricho suspirou


Os dois se levantaram
E saíram pela igreja
Mas, por fora no patamar
Tinha um soldado com inveja
E gritou para Lampião:
— Tu não perdeste a peleja


Lampião não quis conversar
Depressa meteu-lhe a faca
Dando um só golpe certeiro
E inteiro, cortou-lhe a maca
Que o soldado caiu rolando
Gritando como macaca


Kung Fu vendo aquilo
Deu um pulo para trás
E Lampião na bruta calma
Sem perder o seu cartaz
Limpou a faca e guardou
No seu gesto costumaz


Kung Fu disse assim:
— Que é isso, Lampião?
És homem ou assassino
Que ignoras o teu irmão!
Mas Lampião respondeu:
— Tudo isso é ilusão


Kung Fu vendo aquilo
Depressa se indignou
Com força pra Lampião
Num tom grave assim falou:
— Procedimento igual a esse
Nesse momento terminou!


Lampião sorriu pra ele
E com um punhal na mão
Despalitou a dentadura
Pra depois cuspir no chão
Respondendo pra Kung Fu:
— És atrevido, tenho impressão


Kung Fu ouvindo isso
Parece que não gostou
Fez um gesto de caratê
Que Lampião lhe apontou
Disparando duma só vez
Seis descargas mas não acertou

Kung Fu tem uma espada
De aço, bem temperado
E livrou-se daquelas balas
De um golpe inesperado
Cortando as balas no meio
Pois quem viu ficou assombrado


Kung Fu de um só pulo
Do fuzil, o cano entortou
Com um golpe dado com a mão
A cem metros do arremessou
E quem quiser vá ao museu
Para ver como ficou


Lampião disse: — Oxente
Quem já se viu coisa assim
Mas Kung Fu de repente
Malhou seu espadachim
E Lampião pulou gritando:
— Hoje tudo está pra mim


Com uma espada grande
Kung Fu nele malhou
Lampião com uma peixeira
Seus planos atrapalhou
Mas Kung Fu com sua espada
A peixeira dele cortou


Lampião: — Virgem Maria
Que espada desgraçada!
E do meio da cintura
Puxou a faca lombada
E partindo desse momento
Teve a briga recomeçada


Quando a espada de Kung Fu
Batia na faca de Lampião
Com quarenta léguas se via
Aquele enorme clarão
Que o povo de Pernambuco
Pensou que era ilusão


Kung Fu roçava a espada
Lampião se defendia
Com uma faca lombada
Cortando de travessia
E os golpes daquelas armas
De longe a gente ouvia


Se Lampião saltava alto
Kung Fu também saltava
Naquela briga feroz
O fogo azul que faiscava
Tinha um brilho tão grande
Que o dia ofuscava


Kung Fu deu um pulo alto
Para confundir Lampião
Mas ele fez um rodízio
Rodando que nem pião
Que Kung Fu quando baixou
Quase que perdia a mão


Para se livrar um do outro
Pulavam mais do que bode
Corriam mais do que ema
Que a areia com os pés sacode
Mas aquilo para eles dois
Era gostoso como um pagode


Nessa luta eles passaram
Sem dormir sem descansar
Sete noites e sete dias
É o que posso lhe contar
Suavam como chaleiras
Mas não queriam se entregar


Um olhava para o outro
Reconhecendo do seu valor
Mas a vontade de brigar
Ardia com mais calor
E a luta recomeçava
Com outro novo sabor


Duma faísca da espada
Com aquele grande punhal
Provocou enorme incêndio
Em cem tarefas de canavial
Chamando logo a atenção
De Kung Fu e seu rival


Lampião disse assim:
Kung Fu, você está vendo
Esse fogo no vegetal
Que por nós está ardendo
É algo que a natureza
Para nós está dizendo


Kung Fu disse: — Falou!
A guerra não tem sentido
O homem brigar com o homem
Me causa dor no ouvido
As conquistas e os massacres
São atos de tempo ido


Neste momento Kung Fu
E Lampião se abraçaram
Dando fim a um duelo
Que sem morrer terminaram
E eu peço aos meus leitores
Mil desculpas se não gostaram.


     Queridos alunos, esse texto pertence ao gênero literatura de cordel, muito comum na região Nordeste de nosso país. Gostaria que vocês apontassem algumas características desse gênero, além, é claro, de dizer o que acharam do texto. 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Cenas de humor

     Na semana passada, os alunos foram desafiados a produzir cenas de humor. O resultado foi ótimo! Confiram as fotos abaixo:










sábado, 17 de março de 2012

Texto teatral - adaptação

     Neste bimestre, estamos trabalhando com texto teatral escrito. Na semana passada, os alunos entregaram o primeiro trabalho nesse gênero: uma adaptação do texto "Povo", de Luís Fernando Veríssimo. 
     Escolhi dois desses trabalhos para ilustrar o desempenho dos alunos. O primeiro está bem fiel ao original; já o segundo propôs algumas modificações, inclusive criando um novo desfecho.



O carnaval
(Adaptação Andressa Teixeira e Roberta Gravino)
Debora          (grita) Geneci…
Geneci           Senhora?
Debora          (entusiasmada) Preciso falar com você.
Geneci           (com medo) O que foi? O almoço não estava bom?
Debora          O almoço estava ótimo. Não, não é isso. Precisamos conversar.
Geneci           (desconfiada) Maaas aqui na cozinha?
Debora          Aqui mesmo. O seu patrão não pode ouvir.
Geneci           Sim, senhora.
Debora          Você…
Geneci           Foi o copo que quebrei?
Debora          (batendo o pé) Quer ficar quieta e me escutar?
Geneci           Sim, senhora.
Debora          Não foi o copo. Você vai sair na escola, certo?
Geneci           Vou, sim senhora. Mas, se a senhora quiser, eu venho na terça…
Debora          Não é isso, Geneci!
Geneci           Desculpe.
Debora          É que eu… Geneci, eu queria sair na sua escola!
Geneci           Mas…
Debora          Ou fazer alguma coisa. Qualquer coi-sa. Não aguento ficar fora do carnaval!
Geneci           Mas…
Debora          Vocês não tem, sei lá, uma ala das patroas? Qualquer coisa.
Geneci           Se a senhora tivesse me falado antes…
Debora       Eu sei. Agora é tarde. Para a fantasia e tudo o mais. Mas eu improviso uma baiana. Deusa grega, que é só um lençol.
Geneci           Não sei…
Debora          (insistindo) Saio na bateria. Empurrando alegoria.
Geneci           Olha que não é fácil…
Debora       Eu sei. Mas eu quero participar. Eu até sambo direitinho. Você nunca me viu sambar? Nos bailes do clube, por exemplo. Toca um samba e lá vou eu. Até acho que tenho um pé na cozinha. (Encabulada.) Quer dizer. Desculpe.
Geneci            Tudo bem.
Debora        Eu também sou povo, sou povo, Geneci! Quando vejo uma escola passar, fico toda arrepiada.
Geneci           Mas a senhora pode assistir.
Debora         Mas eu quero participar, você não entende? No meio da massa. (Entusiasmada.) Sentir o que o povo sente. Vibrar, cantar, pular, suar...
Geneci           Olhe…
Debora          Por que só vocês podem ser povo? Eu também tenho direito, poooxa.
Geneci           Não sei…
Debora          Se precisar, eu pago, eu pago!
Geneci           Não é isso. É que…
Debora        Está bem. Olha aqui. Não preciso nem sair na avenida. Posso costurar. Ajudar a organizar o pessoal. Ajudar no transporte. O Alfa Romeo está aí mesmo. Tem o Caravan, se o patrão não der falta... É a emoção de participar que me interessa, entende? Poder dizer “minha escola”. Eu teria assunto para o resto do ano. Minhas amigas ficariam loucas de inveja. Alguns iam torcer o nariz, claro. Mas eu não sou assim. Eu sou legal. Eu não sou legal com você, Geneci? Sempre tratei você de igual para igual.
Geneci           Tratou sim, senhora.
Debora          Meu Deus, a ama-de-leite da minha mãe era preta!
Geneci           Sim, senhora.
Debora       Geneci, é um favor que você me faz. Em nome da nossa velha amizade. Faço qualquer coisa pela nossa escola, Geneci.
Geneci           Bom, se a senhora está mesmo disposta…
Debora          (resolvida) Qualquer coisa, Geneci.
Geneci           É que o Rudinei e a Fátima Araci não têm com quem ficar.
Debora          Queeem???
Geneci           Minhas crianças.
Debora          (desanimada) AHHH.
Geneci           Se a senhora pudesse ficar com eles enquanto desfilo…
Debora          Certo, bom. Vou pensar. Depois a gente vê.
Geneci           Eu posso trazer elas e…
Debora          (irritada) Já disse que vou pensar, Geneci! Sirva o cafezinho na sala.

Povo
(Adaptação Louise Erthal Rabelo Parente e Raissa de Oliveira Couto)
Elizabeth:     (entra na cozinha gritando) Geneciiii!
Geneci:         Senhora?
Elizabeth:     Preciso falar com você.
Geneci:         O que foi?
Elizabeth:    Nada, somente uma conversa entra duas amigas.
Geneci:        Aqui na cozinha?
Elizabeth:    Aqui mesmo. O seu patrão não pode ouvir, você sabe com ele odeia o carnaval.
Geneci:         Sim, senhora.
Elizabeth:    Você… Você vai sair na escola, certo?
Geneci:         Vou sim, senhora. Mas se quiser que eu venha na terça, eu não ligo.
Elizabeth:    Não é isso, Geneci.
Geneci:         (cabisbaixa) Desculpe.
Elizabeth:  Não precisa desculpar-se. É que… Geneci, eu quero sair na sua escola. (Ansiosa.)
Geneci:         Mas…
Elizabeth:    Ou fazer alguma coisa. Qualquer coisa. (Insistente.) Não aguento ficar fora do carnaval.
Geneci:         (tímida) Mas… Não tem mais nada para fazer.
Elizabeth:    (apreensiva) Vocês não têm, sei lá, uma ala das patroas? Qualquer coisa.
Geneci:       Se a senhora tivesse me falado antes…
Elizabeth:   Eu sei. Agora é tarde. Para a fantasia e tudo mais. Mas eu improviso uma baiana. Deusa grega, que é só um lençol.
Geneci:         Não sei…
Elizabeth:    Eu até sambo direitinho. Você nunca me viu sambar? Nos bailes do clube, por exemplo. Toca um samba e lá vou eu. Até acho que nasci pro carnaval!
Geneci:         (rindo) Será? Não parece.
Elizabeth:    Pare, Geneci. Não brinque, é sério.
Geneci:       Eu sei, é que não tem mais vagas. (O celular de Geneci toca.) Desculpe, só um minuto. (Geneci se afasta e atende o celular.)
Elizabeth:    (impaciente) Mas seja rápida, temos que terminar essa conversa.
Geneci:         (volta feliz, com um sorriso no rosto) A senhora não vai acreditar!
Elizabeth:    (ansiosa) Mas o que foi, Geneci? Conte-me logo!
Geneci:         Está bem, vou te contar. Mas fique calma.
Elizabeth:    (mais ansiosa) Tudo bem! Agora me conte.
Geneci:      Então… A Bruna, da ala das baianas, sofreu um acidente e não poderá participar.
Elizabeth:    Mas… E aí?
Geneci:        E, como eu organizo a ala das baianas, tenho que arrumar uma substituta.
Elizabeth:    (eufórica) Não acredito! Isso é sério mesmo!? Não brinque comigo!
Geneci:         É sério, mas agora me diga o tamanho que calça e que veste.
Elizabeth:    (pula de alegria enquanto canta) Eu vou pro carnaval! Eu vou pro carnaval!
                       (Entra Robert, o marido.)
Robert:         Mas que alegria toda é essa?
Elizabeth:    (pisca para Geneci) Nada, querido, coisas de mulher.

(Geneci ri baixo.)